Sou uma pessoa automotivada que adora trabalhar com pessoas, igualmente,
motivadas. Porém, sou um crítico da teoria da motivação. Ela promete mais do que
pode entregar. Aliás, a fé na teoria motivacional lembra a postura do demônio
fictício criado pelo matemático francês Pierre S. Laplace (1749–1827).
Para o laplaceano conhecidas a posição e a velocidade de todas as
partículas do universo, podia-se prever com exatidão onde elas estariam daqui a
alguns séculos, décadas, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos. Os
“motivacionistas” concordam: “reconhecendo o que motiva João, Pedro ou Tereza
poderemos prever como agirão daqui até o dia do juízo final”.
Conhecer, prever e controlar é o sonho dourado da ciência moderna. Um sonho
grandioso que esconde benefícios e pesadelos. Vejamos ...
O homem é movido
por necessidades e aspirações conscientes e inconscientes. Temos apetites nobres
(amar, superar desafios, desenvolver a auto-estima etc.) e plebeus (comer,
dormir, receber o salário mensal etc.) e lutamos para satisfazê-los. E é justo
que a organização e a sociedade facilite o acesso de seus membros a tais
objetivos.
Temos que nos alimentar! Só que santos, ascetas e anoréxicos fazem do jejum
um estilo de vida. Clamamos por segurança e esquecemos que mártires, bombeiros e
policiais ganham o pão de cada dia arriscando o próprio pescoço. Ansiamos
por amigos e esquecemos que há amigos da onça, para usar uma expressão antiga.
Queremos crescer, mas há quem use meios escusos para tanto; isso sem mencionar
os sociopatas que são imunes a qualquer rasgo de sociabilidade.
Ou seja, nem todos os motivos que inspiram a ação humana são lineares,
transparentes ou nobres. Pelo contrário, alguns devem ser reprimidos no lugar de
incentivados. Contudo, não se escuta um pio sobre essa área cinzenta da
motivação humana.
A teoria motivacional afirma que a relação de trabalho saudável pressupõe uma
troca pessoa a pessoa e entre a organização e os empregados. No balcão de
negócios as partes interessadas permutam comprometimento, competências e
lealdade em troca de salários, benefícios e oportunidades de crescimento
profissional.
Os termos são justos e devem ser respeitados na medida do possível. Porém,
nem sempre amor é retribuído com amor, e nem sempre comprometimento, lealdade e
competência garantem emprego vitalício. As forças cegas do mercado foram
abolidas? Os nossos postos de trabalho, salários e benefícios deixaram de ser
afetados pela concorrência local e global? O inconsciente humano foi suprimido
como um dos orientadores da nossa conduta?
Em que mundo vivem esses “pregadores” que ignoram que investimentos e
empregos soçobram diante de crises no primeiro e terceiro mundo? Ou que
interesses menores como ódio, inveja, egoísmo e falta de vergonha na cara fazem
parte da vida social e organizacional e são, para alguns, forças altamente
motivadoras?
Então ficamos assim: entre tapas e beijos a teoria motivacional e o tinhoso
de Laplace acertam ora no cravo, ora na ferradura. Há uma porção previsível da
realidade que obedece a leis mecânicas em que os fenômenos se encadeiam com
facilidade: fome > alimento; frio > agasalho; solidão > companhia.
Porém, a porção menos previsível do ser humano segue a lógica do id, do
instinto de sobrevivência ou das paixões, às vezes cega outras vezes bruta. Um
novo amor coloca em risco emprego, carreira e finanças pessoais dura e
motivadamente conquistados. Da mesma forma que o pneu furado de um carro no meio
da rua instaura o caos momentâneo: negócios preteridos, pacientes não atendidos,
o bandido que escapa por um triz de ser preso, o empregado que arranja a
desculpa ideal para faltar ao trabalho e outras tramas que dificultam a arte de
prever e gerenciar o comportamento humano.
Os “motivacionistas” também erram
ao ignorar a força do hábito, do medo, da pressão social ou da injunção moral
que fazem com que o indivíduo obedeça a seus superiores e trabalhe sem estar
particularmente motivado. É ideal? Não! Mas o mundo é real antes de ser
ideal.
Ou seja, a vida transcorre entre leis mecânicas previsíveis e uma dose de
caos, de complexidade e imprevisibilidade. O ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Act),
base para o esforço organizacional de melhoria contínua, é cartesiano e funciona
muito bem, obrigado. Só que o comportamento humano, que é a base da motivação,
está mais para Freud do que para Descartes.
Portanto, caro leitor, mesmo que o demônio de Laplace entenda tudo sobre
motivação, duvido que saiba onde estaremos amanhã ou daqui a duas horas. O que
dizer acerca do futuro distante? A nossa conduta é como a meteorologia: mesmo
quando a previsão é dia ensolarado, convém sair de casa com um guarda-chuva.
Cabe às organizações fornecer o guarda-chuva salário, benefícios,
treinamento, feedback, oportunidades de crescimento profissional e lideres que
inspirem. Mas cabe a cada um cuidar da sua vida e da sua própria satisfação ou
insatisfação.