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O Demônio de Laplace e a Teoria da Motivação
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19/11/2008
O Demônio de Laplace e a Teoria da Motivação
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Sou uma pessoa automotivada que adora trabalhar com pessoas, igualmente, motivadas. Porém, sou um crítico da teoria da motivação. Ela promete mais do que pode entregar. Aliás, a fé na teoria motivacional lembra a postura do demônio fictício criado pelo matemático francês Pierre S. Laplace (1749–1827).

Para o laplaceano  conhecidas a posição e a velocidade de todas as partículas do universo, podia-se prever com exatidão onde elas estariam daqui a alguns séculos, décadas, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos. Os “motivacionistas” concordam: “reconhecendo o que motiva João, Pedro ou Tereza poderemos prever como agirão daqui até o dia do juízo final”.

Conhecer, prever e controlar é o sonho dourado da ciência moderna. Um sonho grandioso que esconde benefícios e pesadelos. Vejamos ...
O homem é movido por necessidades e aspirações conscientes e inconscientes. Temos apetites nobres (amar, superar desafios, desenvolver a auto-estima etc.) e plebeus (comer, dormir, receber o salário mensal etc.) e lutamos para satisfazê-los. E é justo que a organização  e a sociedade facilite o acesso de seus membros a tais objetivos.

Temos que nos alimentar! Só que santos, ascetas e anoréxicos fazem do jejum um estilo de vida. Clamamos por segurança e esquecemos que mártires, bombeiros e policiais ganham o pão de cada dia arriscando o próprio pescoço. Ansiamos por amigos e esquecemos que há amigos da onça, para usar uma expressão antiga. Queremos crescer, mas há quem use meios escusos para tanto; isso sem mencionar os sociopatas que são imunes a qualquer rasgo de sociabilidade.

Ou seja, nem todos os motivos que inspiram a ação humana são lineares, transparentes ou nobres. Pelo contrário, alguns devem ser reprimidos no lugar de incentivados.  Contudo, não se escuta um pio sobre essa área cinzenta da motivação humana.

A teoria motivacional afirma que a relação de trabalho saudável pressupõe uma troca pessoa a pessoa e entre a organização e os empregados. No balcão de negócios as partes interessadas permutam comprometimento, competências e lealdade em troca de salários, benefícios e oportunidades de crescimento profissional.

Os termos são justos e devem ser respeitados na medida do possível. Porém, nem sempre amor é retribuído com amor, e nem sempre comprometimento, lealdade e competência garantem emprego vitalício. As forças cegas do mercado foram abolidas? Os nossos postos de trabalho, salários e benefícios deixaram de ser afetados pela concorrência local e global? O inconsciente humano foi suprimido como um dos orientadores da nossa conduta?

Em que mundo vivem esses “pregadores” que ignoram que investimentos e empregos soçobram diante de crises no primeiro e terceiro mundo? Ou que interesses menores como ódio, inveja, egoísmo e falta de vergonha na cara fazem parte da vida social e organizacional e são, para alguns, forças altamente motivadoras?

Então ficamos assim: entre tapas e beijos a teoria motivacional e o tinhoso de Laplace acertam ora no cravo, ora na ferradura. Há uma porção previsível da realidade que obedece a leis mecânicas em que os fenômenos se encadeiam com facilidade: fome > alimento; frio > agasalho; solidão > companhia.

Porém, a porção menos previsível do ser humano segue a lógica do id, do instinto de sobrevivência ou das paixões, às vezes cega outras vezes bruta. Um novo amor coloca em risco emprego, carreira e finanças pessoais dura e motivadamente conquistados. Da mesma forma que o pneu furado de um carro no meio da rua instaura o caos momentâneo: negócios preteridos, pacientes não atendidos, o bandido que escapa por um triz de ser preso, o empregado que arranja a desculpa ideal para faltar ao trabalho e outras tramas que dificultam a arte de prever e gerenciar o comportamento humano.
Os “motivacionistas” também erram ao ignorar a força do hábito, do medo, da pressão social ou da injunção moral que fazem com que o indivíduo obedeça a seus superiores e trabalhe sem estar particularmente motivado. É ideal? Não! Mas o mundo é real antes de ser ideal.

Ou seja, a vida transcorre entre leis mecânicas previsíveis e uma dose de caos, de complexidade e imprevisibilidade. O ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Act), base para o esforço organizacional de melhoria contínua, é cartesiano e funciona muito bem, obrigado. Só que o comportamento humano, que é a base da motivação, está mais para Freud do que para Descartes.

Portanto, caro leitor, mesmo que o demônio de Laplace entenda tudo sobre motivação, duvido que saiba onde estaremos amanhã ou daqui a duas horas. O que dizer acerca do futuro distante? A nossa conduta é como a meteorologia: mesmo quando a previsão é dia ensolarado, convém sair de casa com um guarda-chuva.

Cabe às organizações fornecer o guarda-chuva salário, benefícios, treinamento, feedback, oportunidades de crescimento profissional e lideres que inspirem. Mas cabe a cada um cuidar da sua vida e da sua própria satisfação ou insatisfação.

 
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Últimos Comentários
 

Eugen Pfister - [Autor] - 26/11/2008 - 16h56m

O seu comentário sobre Mallarmé me fez lembrar a frase atribuída a Einstein que “Deus não joga dados com o Universo”. Mas em nossas vidas somos obrigados a jogar, pois não contamos com certezas absolutas nas questões mundanas. A teoria da motivação é uma hipótese bem intencionada, as vezes ela funciona, outras não. Vamos rolar os dados, portanto.

José Luiz da C.Aguiar Negrini - 24/11/2008 - 15h51m

Claro que sempre haverá o modo particular de cada um, que mesmo os bons instrumentos de avaliação não conseguem identificar, fora outros eventos desmotivadores. Enfim, como disse Mallarmé, "um jogo de dados jamais abolirá o acaso"!!! Como trabalhamos com empresas, continuemos a lutar para que façam ao menos a sua parte:"fornecer o guarda-chuva salário, benefícios, treinamento, feedback, oportunidades de crescimento profissional e lideres que inspirem". Acho que teremos caminhado bastante para que as pessoas possam ter estímulo suficiente, se não bastar a necessidade de trabalhar!!!!

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Eugen Pfister
 
 
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